Fazenda Marambaia: um jardim, um banqueiro e a reinvenção da vida na serra de Petrópolis
05 set 2026

Fazenda Marambaia: um jardim, um banqueiro e a reinvenção da vida na serra de Petrópolis

Corrêas
Ricardo Maciel
Ricardo MacielBy Casa Ximenes

Criada como residência de veraneio, a propriedade em Corrêas atravessou mudanças de donos, reviravoltas financeiras e uma recuperação paisagística antes de se transformar em hotel e condomínio de alto padrão.

Antes das casas contemporâneas, do hotel boutique e das experiências de bem-estar, havia uma residência particular e um jardim que parecia continuar pelas montanhas. A Fazenda Marambaia, em Corrêas, Petrópolis, Rio de Janeiro guarda uma história em que arquitetura, paisagismo e mercado financeiro se encontram. Para entendê-la, é preciso voltar aos anos 1940, quando Odette e Júlio Monteiro escolheram aquele cenário para sua casa de veraneio.

As fontes disponíveis dizem pouco sobre a trajetória pessoal do casal. Sua presença na história ficou registrada sobretudo pela propriedade que encomendaram: um casarão projetado por Wladimir Alves de Sousa, cercado por jardins de Roberto Burle Marx. A obra se tornaria conhecida no repertório do paisagista como Residência Odette Monteiro, nome que permanece nos registros de sua fundação.

Um episódio ajuda a compreender a relação dos Monteiro com o projeto. Segundo relato publicado pelo Papo de Paisagista, Júlio dispensou a análise do anteprojeto dos jardins, tamanha a confiança em Burle Marx. A liberdade permitiu ao artista trabalhar a relação entre vegetação, água, pedras e relevo. O resultado recebeu um prêmio na Bienal de São Paulo de 1953. Não era apenas um jardim para ser visto da varanda: era uma paisagem para percorrer.

O banqueiro que fez da fazenda sua casa

Décadas depois, a Marambaia entrou na vida de Luiz Cezar Fernandes. Sua trajetória havia começado longe dos salões da propriedade. Adolescente, trabalhou como contínuo no Bradesco, entregando correspondências e aprendendo a rotina bancária. Em entrevista à revista piauí, contou que procurava tarefas adicionais depois do expediente externo. Aos 16 anos, já era procurador; aos 17, foi transferido para o Rio. ⁠

Na década de 1970, tornou-se sócio de Jorge Paulo Lemann no Garantia. Em 1983, fundou o Pactual com André Jakurski e Paulo Guedes. A carreira foi marcada pela criação de negócios, mas também por divergências sobre seus rumos. No Pactual, defendia a expansão para o varejo bancário, enquanto outros sócios preferiam manter o foco em investimentos. Problemas financeiros em suas empresas pessoais se somaram às disputas societárias, e Fernandes deixou definitivamente o banco em 1999.

Quando passou a morar na Marambaia, em 1987, ainda vivia a expansão de sua carreira. A fazenda recebeu sua coleção de arte e tornou-se residência e, posteriormente, espaço de trabalho. Burle Marx e Haruyoshi Ono foram chamados para novas intervenções, com acréscimos aos jardins, quedas-d’água e um painel cerâmico.

Depois da saída do Pactual, Fernandes tentou reconstruir sua atividade empresarial dentro da própria fazenda. Antigas baias abrigaram salas de reunião; o hangar recebeu uma operação de telecomunicações. Entre compromissos, ele acompanhava a criação de ovelhas Santa Inês. A Marambaia era, ao mesmo tempo, casa, negócio e lugar de recomeço.

A mudança de destino

A passagem para o empreendimento atual não nasceu de uma simples decisão de transformar a residência em hotel. Foi precedida por dificuldades financeiras e disputas patrimoniais. Em 2010, Fernandes recorreu a André Esteves, seu antigo colaborador no Pactual, para evitar a perda da propriedade diante de uma dívida.

Em 2018, O Globo já noticiava um projeto imobiliário na área. Segundo o relato de Fernandes publicado na ocasião, a construtora envolvida era sócia de um fundo administrado pelo BTG Pactual. Esse registro situa a ligação do banco com a transformação da fazenda, embora não permita afirmar que a instituição seja sua proprietária direta hoje.

A nova fase ganhou forma com a recuperação da sede e dos jardins. No fim de 2020, a Casa Marambaia começou a receber hóspedes; em 2021, o condomínio conduzido pela incorporadora Pilar já tinha suas primeiras casas comercializadas. A hotelaria, inicialmente sob gestão da Promenade, e a implantação residencial avançavam em paralelo. A antiga propriedade particular passava a reunir moradia, hospedagem e gastronomia.

A oportunidade encontrou um público em transformação. A pandemia ampliou a procura por residências fora dos grandes centros, inclusive para uso permanente. Na Marambaia, a proposta era oferecer a experiência da casa de campo acompanhada de infraestrutura e serviços, aproveitando uma paisagem cuja identidade já estava estabelecida muito antes dos lançamentos imobiliários.

Alto padrão sem perder a identidade

O condomínio se desenvolveu por etapas. Projetos posteriores passaram a contar com arquitetos como Thiago Bernardes e Gisele Taranto, reforçando o posicionamento de alto padrão. A arquitetura contemporânea entrou nessa história com uma proposta de conforto e integração ao entorno, associada a esportes, gastronomia e uma vida menos apressada.

Hoje, a Fazenda Marambaia apresenta seu conceito comercial como healthness farm: moradia vinculada à natureza, à atividade física e ao bem-estar. Trilhas, espaços de convivência, práticas esportivas e opções de relaxamento compõem a experiência anunciada, enquanto a Casa Marambaia concentra hospedagem e gastronomia. Cada operação possui suas próprias condições de acesso e utilização.

A mudança é significativa: o refúgio de uma família tornou-se endereço de muitas outras. Mas o principal diferencial não nasceu com o condomínio. Está no encontro entre o jardim, o casarão e as montanhas — uma relação construída ao longo de décadas. O futuro da Marambaia dependerá também de preservar esse equilíbrio: permitir novos usos sem tornar irreconhecível o lugar que os tornou possíveis.

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